No ar, a novela da novela
O diz-que-diz da hora dá conta de que estão se estranhando os novelistas Walcyr Carrasco e Aguinaldo Silva. Os dois trocam farpas e malquerências via Twitter. Nos respectivos blogs, aumentam a voltagem da carga. Silva acusa Carrasco de roubar uma ideia sua, devidamente registrada na Biblioteca Nacional, para usar na insípida Morde e Assopra. A tal história do filho que engana a mãe pobretona, que se mata de trabalhar para formar um médico que jamais colou grau. Não dá pra entender por que os dois se bicam: essa trama, como de resto a maioria do que vemos em nossas telenovelas, é um déjà vu só. Filho (a) com vergonha de mãe, nossa!, quantas vezes já vi. A primeira delas ( para mim, porque já era refilmagem) em Imitação da Vida, versão 1959. Chorei pra me acabar com Juanita Moore, a negra Annie, renegada pela filha branca, Sarah Jane.
A arte dramática lançou suas bases – e seus conflitos - na Grécia Antiga. De lá pra cá, é só uma questão de quem tem mais talento para abordar o que já foi abordado centenas de milhares de vezes, né, não?
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Falo de Silva e Carrasco porque, lá no fundo, quero exaltar Gilberto Braga. E viva a diferença! Ele está presente na TV com três tremendos sucessos e um quarto saiu do ar há duas semanas. Falo, na ordem, de Insensato Coração, a novela das nove, de Anos Rebeldes – sua obra-prima das minisséries – e Vale Tudo, a obra-prima das telenovelas. Esta, aliás, em parceria, que hoje acho estranhíssima, com Aguinaldo Silva. A quarta é a romântica Anos Dourados, uma delícia de seriado.

Gilberto Braga, em cada uma delas, mostra a sua genialidade. Os outros novelistas são geniais episodicamente. Gilberto é avant la lettre: se hoje fosse feito um remake de Vale Tudo, só se precisaria mexer na questão da economia brasileira, que é outra pós-Real, nos cenários, figurinos e, obviamente, na escalação do elenco. A cafajestada do país permanece a mesma. Os conflitos humanos, idem. Fico pensando que Odete Roitman divina daria a Marília Pêra, hein?! Só não me ocorre quem poderia ser a Maria de Fátima, vivida escandalosamente bem por uma jovem Glória Pires. Hoje, não temos nem projeto de Glória Pires na televisão. Ela é tudo! Inclusive moça demais para viver a Odete hoje. Quem sabe daqui a uns 10 anos?
Outro que seria difícil de substituir: o grande Antonio Fagundes, que, moço lindo ou coroa gostoso, faz misérias em cena. Insensato, que começou morna, está eletrizante, em que pese o casal de protagonistas sem liga, a incomensurável chatice da Camila Pitanga e sua irmã, o furor uterino da Bibi. Vamos combinar que o Rio não tem macho pra dar conta da dadeira bilionária. Aliás, o mundo não tem. Sem problemas: com Deborah Secco e Leonardo Miggiorin em cena, dando aqueles pitis hilários e viadésimos, a gente esquece os outros. Gilberto e seu parceiro, Ricardo Linhares, acertaram a mão. Escrevem, trabalham, acompanham as pesquisas, retocam, finalizam. Não sobra tempo pra futriquinhas de Twitter e blogs. Talvez por isso brilhem tanto e há tanto tempo.
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Sou viciada em televisão, vou dormir às tantas por causa de Vale Tudo, e ainda me comovo com cenas que vi e revi tantas vezes. Em Anos Dourados, o romance maduro e proibido de Betty Faria ( linda de morrer) e o Zé de Abreu, embalado por Alguém como tu. Em Vale Tudo, com o sofrimento da mãe Raquel (grande Regina Duarte!) que não merece ter uma filha como a pérfida Maria de Fátima, ou com o alcoolismo da Heleninha ( grande Renata Sorrah!) e o sofrimento que ela se auto-inflige e ainda distribuiu por filho, mãe, irmão, tia... Aqui um comentário à parte: que grande ator é o Cássio Gabus Mendes, que podemos ver mocinho, mocinho, em Vale Tudo e Anos Rebeldes, e agora, mais gordinho, grisalho, dando vida ao irritante e homófobo Kleber de Insensato Coração.

Chorei, dia desses, com a impecável cena que junta Cássio e Marcelo Serrado, em Anos Rebeldes, quando eles concluem que não podem romper relações por causa da Maria Lúcia. É uma cena tocante, delicada, um diálogo antológico sobre a corrida espacial russa, a cachorrinha Laika e o sentido da amizade.
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Tenho também me comovido muito com tantos e tão grande atores que já morreram – e como fazem falta! Cláudio Correia e Castro, Yara Amaral, Gianfrancesco Guarnieri, Geraldo del Rey, Geórgia Gomide, Zeni Pereira, as irmãs Lourdes Mayer e Zilka Salaberry. Todos sempre presentes nas tramas de Gilberto, alguns – Cláudio, Lourdes, Zeni - assim como uma espécie de pé de coelho. Saudade dessa turma tão talentosa, todos atores extraordinários.
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Aguinaldo Silva e Walcyr Carrasco, claro, tiveram grandes momentos na TV. Aguinaldo, especialmente, que é novelista há mais tempo. Mas o que é Lara com Z? O samba-exaltação a Suzana Vieira atravessou na avenida. Torço por Fina Estampa. Vai ser difícil substituir a novela do Gilberto e do Ricardo. Especialmente trazendo para o centro da trama mais uma mãe que se mata de trabalhar para o filho mau-caráter aprontar. Isso aí já deu, garotos.
