Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Anna Ramalho

Anna Ramalho: De olho numa trança loura

Jornal do BrasilAnna Ramalho

Dia desses, num comercial de TV, a bonita Ildi Silva propunha às telespectadoras que participassem de um concurso da L’Oréal, cujo prêmio máximo é uma viagem a Paris. A moça  bonita contava tudo que já fez com seus longos cabelos e convidava o mulherio a escrever sua história. Cada qual com seu cabelo. A mais original ganha a viagem e outras benesses menos excitantes, mas benesses anyway.

Talvez porque tenha visto o anúncio antes de dormir, talvez porque neste dia custei muito a pegar no sono, a proposta ficou na minha cabeça – junto com os cabelos, claro – durante aquela noite branca. No dia seguinte, batendo perna por Ipanema, passei pela vitrine da Fizspan, que exibia uma linda e loura trança postiça. Baixou aí a inspiração.

***

Sempre tive os cabelos muito lisos e finos e minha primeira lembrança vem dos berros que eu dava, pequena, quando a babá cumpria seu ofício de desembaraçá-los. Era um inferno. Só perdia para a sessão rabo de cavalo: meu cabelo tinha que ser gomalinado na frente pra segurar o tranco e não deixar escorregar o elástico. Para prender os laços de fita era outro inferno. Pregadores idem. Nada segurava, tudo escorregava.  Vovó, que se irritava com o que chamava de “cabelo de índio”, inventou de fazer um permanente Toni caseiro e quase me deixa careca. Besteira que cometi, 30 anos depois, e saí do cabeleireiro parecendo uma poodle. Mais ou menos o dia de horror, há uns cinco anos, quando cansei de ser loura ( coisa que sou desde os anos 70) e virar ruiva. Meu filho deu um ataque quando viu e não foi só ele.

Os cabelos lisos, no entanto, sempre foram motivo de inveja: nos tempos do colégio, praticamente todas as minhas amigas tinham cabelos crespos, Bonanza, como chamávamos, por causa do seriado de cowboys, cuja mocinha tinha muitos cachos. Todas elas – menos eu e a Lina, que me lembre – viviam de touca. O pessoal da minha época sabe bem que esta touca não tem nada a ver com a touca do dicionário: era uma, digamos, técnica de alisamento que enrolava os cabelos para um lado, depois para o outro, prendia com pinças e os cachos, quando soltos, ficavam lisinhos, lisinhos. Até a primeira garoa. No que caísse chuva no cabelo, o poinhonhoim voltava logo. Eu me divertia nesses dias: no que a chuva ameaçasse cair, as meninas desciam a ladeira do Santa Úrsula às carreiras, protegendo os cabelos com as pesadas pastas, e eu vinha lá atrás, toda, toda, na maior calma, porque o cabelo ensopava, secava, e continuava liso. Naquele tempo não existia chapinha, que praticamente todas fazem hoje, e eu continuo sem entender porque elas não gostam de seus cachos. Que eu, claro, invejo. Afinal, mulher nunca está satisfeita com o que tem.

Na época em que usar peruca era moda ( sim, moçada mais jovem, esta época existiu, podem crer!), descolei uma que era um absurdo de feia. Um cabelo de quinta categoria, mamãe reclamava, e a vovó, indignada, entrou na supracitada Fizspan, e comprou outra com os cabelos tão lisos quanto os meus. Tive uma terceiro com aquele franjão dos Beatles, de cabelo sintético, que comprei aos 16 anos em Nova York. Um absurdo total, mas eu achava o máximo. Nessa época eu ainda era morena.

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Bela Antonia é cheia dos cachos. Assim como seu pai, antes de ficar careca. Minha nora é uma adoradora da chapinha. Um dos dias mais felizes da vida dela foi quando ganhou a bendita prancha alisadora. Já eu ainda me lembro a alegria que tive quando mamãe trouxe de Paris um Babyliss,  aparelhinho que até hoje anda por aí, nos salões de beleza, ajudando a fazer cachos em quem tem cabelos lisos. Bela Antonia andou revoltada com seus cachos. Delirou quando foi cortar o cabelo e fizeram-lhe uma escova. Antes que a maluquice se instalasse na cabecinha de uma criança então com cinco anos, a mãe dela tratou de tecer loas aos seus lindos cabelos. Tem surtido efeito. Ainda que, no último corte, ela tenha pedido uma franja lateral bem escovada. A menina promete.

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Meus cabelos, milagrosamente, mantêm-se lisos e finos como na mocidade, mas não fazem feio. Não estou careca, por exemplo, ou com falhas que mereçam enxertos. Deus é Pai!

Só lamento não ter mais idade pra entrar correndo na Fizspan, comprar a trança loura, e sair sacudindo a própria por aí, como nunca pude fazer. O cabelo liso demais nunca permitiu.

Acho que vou mandar esse relato para a o concurso da L’Oréal. Vai que eu ganho!

Tags: anna ramalho, ildi silva, l’oréal

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