Jornal do Brasil

Quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

André Biancarelli

Um mês depois do 7 x 1, algum bom senso no fim do túnel?

André Biancarelli*

O acima assinado estava presente, exatos trinta dias atrás, naquela dramática tarde-noite no Mineirão. Perto do gol em que os alemães precisaram de pouco mais de 20 minutos para sepultar, com requintes de crueldade (maneirados logo depois), o sonho de chegar à final em casa. O que esse assunto está fazendo em uma coluna como esta, agora que sumiram do noticiário as previsões e vinculações (de qualidade duvidosa) da Copa com os assuntos “sérios” da vida nacional?

Traumas pessoais à parte, já passou da hora de rediscutir o futebol brasileiro com a profundidade que ele merece. As reações de sua cúpula ao vexame da semifinal foram desalentadoras, mas há alguns tímidos sinais de mudança.

O Brasil melhorou muito desde o fim da ditadura, em vários aspectos. Porém em quase tudo que envolve seu esporte mais popular, principalmente fora do campo, importam muito mais as marcas do atraso do que os tímidos avanços (como os pontos corridos e o Estatuto do Torcedor).

Dos cerca de 2O mil jogadores profissionais brasileiros, apenas 20% recebe(quando recebe) acima de 2 salários mínimos, e a maioria em situação precaríssima, empregada apenas em parte do ano. A desorganização programa para uma elite dos clubes uma enorme repetição de jogos desimportantes, e deixa os outros quase 600 sem calendário anual.

A estrutura de poder no futebol é arcaica. As eleições na CBF são comandadas pelas federações estaduais – todas com mesmo peso,10 delas delas com os mesmos dirigentes há mais de 20 anos! O status de entidade privada e as receitas de patrocínio dificultam a influência e o controle do poder público, ao contrário de outras modalidades. O relacionamento com a política tem um péssimo histórico, do “pra frente Brasil” à “bancada da bola”, passando pelas alianças com os velhos e novos cartolas.

A “lei áurea” do futebol, da liberal década de 1990 e que leva o nome do maior da história, acabou abrindo espaço para formas absolutamente selvagens de capitalismo na formação e administração da carreira dos jogadores.

A imprensa, ou boa parte dela, trata o futebol apenas como entretenimento, contribui para a “celebrização” precoce de atletas, se aproveita da estrutura de poder e aprofunda as desigualdades. O espírito crítico, abundante em outras editorias,escasseia nessa. Na apresentação do novo-velho técnico da seleção, um repórter iniciou sua pergunta saudando José Maria Marin como “estadista”...

Isso tudo em meio a alguns contratos milionários de transmissão e patrocínio, salários astronômicos para pequena parte de atletas e treinadores, e transferências cujos valores e frequência são, contábil e esportivamente, um mistério. Os novos estádios que agora fazem parte da paisagem aumentam o contraste. A convivência entre o moderno e o arcaico, teorizada há tempos como “desenvolvimento desigual e combinado” de sociedades atrasadas, encontra no futebol brasileiro um exemplo ímpar.

O quadro gera reações, mas no caso em tela o caminho não é o da revolução. Desde o segundo semestre de 2013, um movimento surgido entre os jogadores –historicamente desmobilizados – vem conquistando adeptos (das mais variadas divisões e condições de trabalho), visibilidade e pequenas vitórias. O Bom Senso FC caracteriza-se, como o nome sugere, pela demanda de providências mínimas para melhorar o futebol para todos os envolvidos.

Diante de todos os problemas, a pauta é modesta, e parece gradual.Um calendário (com a criação da série E) que reduza o número de jogos dos times da elite e garanta compromissos para todos os outros ao longo do ano.E o fair play financeiro:garantias de pagamento de salários em dia e gestão responsável dos clubes.

A mobilização começou com manifestações antes dos jogos, e avança por caminhos mais institucionais. Sempre procurando o diálogo e exigindo outra obviedade: que os principais protagonistas sejam ouvidos. A propósito, as violentas reações ao Decreto Presidencial 8.243/14, que institui a Política Nacional de Participação Social e regulamenta este tipo de interação em todas as áreas, mostra que não são só os cartolas que preferem políticas públicas gestadas em ambientes fechados. Ou sujeitas apenas aos lobbies mais poderosos e menos transparentes.

Na terça-feira 05/08, a pressão organizada e pública dos jogadores conseguiu evitar o que, em outros tempos, seria a aprovação fácil da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, mais um programa de refinanciamento das enormes dívidas fiscais dos clubes de futebol. Ao contrário da proposta original, as contrapartidas e a fiscalização propostos pelo Bom Senso são abrangentes (envolvendo contratos de trabalho, padronização de demonstrações contábeis, controle de déficits, dívidas e custos) e recorrentes.Seria um instrumento na direção do fair play financeiro.

A votação foi adiada para setembro, ganha-se tempo e espera-se que o governo (que recebeu por duas vezes o movimento) e os parlamentares sejam sensíveis. Prazos e custos do refinanciamento também estão em aberto.

Na quarta-feira, o calendário de 2015 foi anunciado pela CBF, com modestos progressos e algumas pérolas (como jogos de clubes nas vésperas, mas não no dia, das partidas oficiais da seleção). Os passos são curtos, o caminho é longo e difícil. Mas existe.

 

*André Biancarelli é professor do Instituto de Economia da Unicamp, diretor do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (Cecon) da mesma instituição e coordenador da Rede D.

Tags: andré, biancarelli, colunista, professor, sexta

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.