Jornal do Brasil

Quarta-feira, 30 de Julho de 2014

Alfredo Sirkis

Devemos investir em Cuba?

Alfredo Sirkis*

A recente cúpula da CELALC que congrega os governos da América Latina e do Caribe, em Havana, foi considerada uma vitória diplomática para Raul Castro. Ressaltou o fato de quase todos os chefes de estado e de governo terem comparecido, da OEA(Organização dos Estados Americanos) ter estado presente, em Havana, pela primeira desde a expulsão de Cuba nos anos 60. Críticos lamentam o fato da delegação da Costa Rica ter sido a única a receber uma visita (rápida e protocolar) de um representante dos dissidentes, Elisardo Sanches, da Comissão Cubana de Direitos Humanos. Aqui, para além das fotos nos jornais, reportagens de TV e anedotário da visita de Dilma a Fidel surgiu uma polêmica sobre o financiamento das obras de Puerto Mariel, pelo BNDES,  via Odebrecht num investimento de dois bilhões e meio de reais.

Devemos investir em Cuba enquanto perdura o cerceamento das liberdades democráticas? Ou colocando de outra forma, a mesma pergunta: o não investimento ou o “boicote” podem contribuir para a abertura do seu regime autoritário? Em relação a Cuba, especificamente –noutros casos pode ser diferente--  está mais do que provado que isto não só não funciona como é contraproducente. O grande demonstrativo está no embargo econômico norte-americano desde os anos 60.  A ideia de que dificultar o desenvolvimento econômico de Cuba vai de alguma forma contribuir para uma revolta que leve a uma mudança de regime é algo já testado e fracassado. A penúria só gera revolta em circunstâncias muito especiais e específicas, via de regra gera conformismo. As pessoas passam suas vidas cotidianas obcecadas pela obtenção de comida e artigos de higiene pessoal.

Por outro lado o regime cubano provem de uma revolução que contou com um grande respaldo popular na parte da população que permaneceu na ilha. Com uma liderança carismática, uma mística revolucionária e inserida num sentimento nacionalista e anti-norte americano profundo o regime promoveu conquistas sociais e estabeleceu um padrão bastante igualitário do ponto de vista econômico, um nivelamento pela penúria embora tenha eliminado a miséria. Cinquenta e cinco anos depois da revolução pode se argumentar que esse ciclo se esgota junto com a existência física de sua geração fundadora, a começar por Fidel, já visivelmente alquebrado.  

A economia de mercado é fato. Puerto Mariel vai ensejar uma zona de exportação, similar às chinesas, com parcerias com o grande capital multinacional. No turismo ela já existe a muito tempo com a privatização das praias mais lindas da ilha por resorts hoteleiros internacionais aos quais os cubanos praticamente não tem acesso. Imaginem nossa ultra-esquerda anti-privatista tendo que explicar que no socialismo cabem praias privativas para estrangeiros!  Circulam na ilha duas moedas. O peso cubano, que paga os salários,  cuja média é de 25 dólares e o peso conversível que vale mais que o dólar. Essa moeda, objeto de desejo geral, é obtida em transações com os turistas e na remessa familiar dos cubanos exilados ou residentes no exterior. Em um dia de táxi informal ou trabalho de guia turístico um cubano de diploma superior ganha mais do que em um mês na sua profissão.

A vida dos cubanos é fortemente condicionada por essa busca constante do dólar conversível. Isso se dá num cenário vintage de carros antigos com um tecido urbano dos anos 50 fortemente degradado que está sendo restaurado em seu charme aqui e ali. As perspectivas futuras no caso de uma abertura para uma economia de mercado com características peculiares  parecem, no entanto, bastante promissoras pelo potencial de investimento dos cubanos expatriados, pela mão de obra barata e razoavelmente qualificada, pela localização geográfica e pela diversificação de laços internacionais.

Nesse quadro, embora não nunca se possa descartar acontecimentos inesperados, a sensação é de que poucos cubanos almejam ou apostam numa ruptura e a grande maioria prefere  investir numa evolução gradual dentro da dinâmica em curso. A China mostra que uma abertura econômica não conduz necessariamente a uma democratização política. Tenho a impressão, no entanto, que dificilmente em Cuba daria certo esse modelo. A grande questão será no futuro a sustentabilidade da futura economia de mercado.

Embora possa tardar a democratização política será inevitável e ela será tanto mais possível quando a sociedade cubana puder sair das penúrias e privações que ainda sofre.  Nesse sentido penso que o caminho a adotar é o diametralmente oposto ao que se obstinaram os EUA esses anos todos e que a Europa seguiu num período recente (e agora está revendo) na era Bush, por inspiração do neo-conservador primeiro ministro espanhol José Maria Aznar.  Penso que devemos, sim, investir em Cuba e financiar –com garantias seguras—sua infraestrutura,  inclusive nos posicionando bem na concorrência  por mercados futuros que virão.

O importante é observar a tendência geral. No momento ela é inequivocamente de reformas econômicas e de uma pequena descompressão política com ligeiro progresso num quadro de liberdades e direitos humanos ainda muito atrasado mas que está melhor do que antes. Nesse contexto devemos fazer todo o possível para estimular a ampliação dessas frestas,  não pela cobrança agressiva mas pelo diálogo e pela disponibilidade em ajudar os cubanos, todos, a melhorar de vida. As mudanças virão ao seu tempo pela mão de quem cabe: eles próprios.

Alfredo Sirkis é escritor, jornalista e deputado federal pelo PSB-RJ

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