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País - Editorial

Os estrangeiros que chegam

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Não há unanimidade na avaliação dos planos que vêm sendo apresentados ao governo brasileiro, por entidades nacionais e estrangeiras, destinados a receber e absorver refugiados ou fugitivos, que não têm mais como suportar as agruras criadas por seus governos. NesSe caso, sobretudo os venezuelanos, cada dia com maiores e melhores razões para dar adeus à pátria. Diz-se que não há unanimidade; mas resta um detalhe sem contestação: o sentido cristão que reside na base da acolhida, sempre lembrada pelo papa Francisco, independentemente da origem e das motivações que levam às fugas em massa.

Não obstante, têm sido recomendado que o acolhimento se faça sob determinados critérios e cuidados, de forma que improvisações não resultem em dificuldades, tanto para o país como para os que estão chegando, esses cada dia em maior número, mesmo sob o risco dos incidentes. Quase sempre, com o ímpeto do espírito de solidariedade, os fugitivos têm sido recebidos às pressas, o que só seria admissível se ficasse evidente sua breve permanência. Quanto aos que aportam em Roraima, a duração é impossível de se prever, porque a sorte dessas multidões que se deslocam depende do futuro do presidente Maduro.

Objetivamente, é oportuno considerar que reina grande diferença nas situações em que o Brasil se abre para receber os estrangeiros, e a História se encarrega de mostrá-la. Há mais de um século o país passou a figurar entre os mais receptivos do mundo, não porque desejou receber estrangeiros animados apenas por gestos de fraternidade. Os que chegavam não estavam propriamente em fuga, mas desembarcavam estimulados pelas oportunidades de paz interna e trabalho. Provam-no o São Paulo que os japoneses ajudaram a construir, o Rio Grande e o Paraná, onde fincaram raízes alemães e italianos. Chegaram para ficar e ficaram.

Participação não menos expressiva foi a dos sírios e libaneses, inicialmente para se aventurarem no mascate, depois no comércio, de onde muitos evoluiriam para notáveis projetos industriais. E os portugueses, particularmente, graças ao idioma comum. Mas a imigração não ficou apenas nesses; contam-se dezenas de povos que optaram pelo Brasil, sempre para ficar.

No caso dos venezuelanos há alguma complexidade, para a qual devem estar atentas as entidades que pedem socorro, porque eles não se transferiram. Milhares apenas esperam melhores horizontes, para logo empreender a viagem de volta. Vieram porque o Brasil fica do outro lado; fácil a chegada, fácil o retorno. Não havendo mínimo sinal de perenidade, torna-se difícil a fixação de residências e postos de trabalho. Não há como orientá-los para a profissionalização.

Sem considerar um detalhe complicador: engrossam o contingente de 13 milhões de desempregados. Ocupar a mão de obra estrangeira, qualificada ou não, mas de presença incerta e passageira, torna o quadro mais complexo, afora um dado que constrange e não deixa de aborrecer: quanto mais fugitivos recebermos, melhor para a ditadura de Maduro, que se safa de protestos e cobranças. O esquisito bolivariano fica nos devendo a gentileza.

O problema, certamente, está longe de figurar entre os de fácil solução. E pode se tornar ainda mais complicado, se a política externa pretender conduzi-lo com iniciativas improvidas. A questão venezuelana na fronteira não se resolve com o imediatismo de barracas e cestas básicas. Um primeiro passo seria recorrer ao censo, identificando-se os que têm planos de ficar para sempre, a fim de receberem tratamento diferenciado. Para poderem recomeçar a vida com os pés no chão brasileiro, mesmo que o coração fique do outro lado da fronteira.



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