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País - Editorial

Delicada hora da transição

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O governo ainda não elaborou – ou se elaborou, não divulgou – seu caderno de últimas ações, aquelas que podem ser tomadas nos restritos quatro meses que lhe restam. Prazo muito curto para quase tudo, mas para a administração federal ainda mais improdutivo. Primeiro, porque perde suas forças num período em que os interesses estarão concentrados nas eleições; depois, principalmente, nos preparativos para a posse dos eleitos. Portanto, do presidente Michel Temer e de sua equipe nada mais se pode esperar além do cumprimento de medidas corriqueiras, em particular as que não ensejarão maiores conflitos com os homens e mulheres que estarão chegando para mandar, a partir de janeiro. Quase tudo em clima de monotonia.

Em fim de mandato, costuma-se dizer, o governante tem de saber fechar as malas e abrir o espírito para enfrentar momentos diferentes daqueles que o cercavam, quando assumiu o leme. O que antes era festa, agora são gabinetes e corredores melancólicos. Tomam outro rumos o prestígio e as reverências, como também vai expirando o poder de decidir. Magalhães Pinto, que governava Minas nos anos 60, queixava-se até da demora do cafezinho, pois garçons e contínuos adormeciam pelos cantos. Talvez por isso tenha tentado prorrogar seu mandato, audácia que o Supremo Tribunal cuidou de impedir.

Um presidente, quando vai chegando ao fim da maratona, se já não tem forças e legitimidade para grandes iniciativas, padece também no cenário em que vão desembarcando ministros e assessores imediatos. Gabinetes vazios e encômios desviados para os braços dos poderosos que se preparam para chegar. Fim da solidariedade conjuntural. Como se viu, em horas passadas, retirar-se o líder do governo no Senado, Romero Jucá, sob o pretexto de discordar da política adotada frente à crise dos venezuelanas em Roraima.

Lamúrias à parte, as próximas semanas terão, contudo, certa importância para desanimar o tédio, com as reuniões entre as assessorias cessante e a que vai começar. É a preparação do espólio a ser entregue em janeiro, que - espera-se - há de ser um conjunto de documentos sérios, baseados em relatórios claros sobre os problemas a serem transferidos. A observação faz sentido, porque são raros os governos inaugurados que não se revelam surpresos e surpreendidos ante compromissos não revelados e dívidas escamoteadas. O pessoal que chega sempre assevera não saber que o quadro era tão crítico.

Cabe insistir que essas comissões têm valor, nem sempre respeitado, se estiverem dispostas a uma cuidadosa avaliação do patrimônio de deveres e haveres, que se deseja de cara limpa, sem blush, sem disfarces e outros expedientes que maquiam a realidade. O desconhecimento dessa obrigação se dá, principalmente, quando os que assumem vêm de correntes políticas contrárias. É também do interesse da nação constatar seriedade da parte dos que se despedem. Primeiro passo para uma transição em que predomine diálogo fundado, pelo menos, nos princípios do respeito. Tomara.

É com base em tal observação que os remanescentes da equipe Temer deverão deixar claro, por exemplo, que, tendo fracassado na reforma da estrutura da Previdência Social, fica fora de dúvida que ela terá de ser empreendida dentro de poucos meses, sob pena de abrir falência. É um petardo para explodir na mesa do novo presidente.

E, sem escapatória, logo entrarão em cena desafios que certamente chegarão, poderosos, com a herança política. Porque, tanto para o entendimento como para o encaminhamento, a maneira de enfrentá-los vai depender de quem será bem-sucedido nas urnas. Com uma diferença influente: o futuro presidente vai dispor do dobro do mandato de Temer, que foi chamado num momento crítico, sem ter como fazer o que desejava, e não tendo como ceder à linha adotada pela antecessora. Pelo menos, o novo terá fartura de dias para correr atrás de soluções. Se vai celebrar êxito ou deplorar derrota só o futuro dirá.



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