Jornal do Brasil

Visto de Fora

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Miguel Paiva

Tiros na noite

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Lembro muito bem dos meus tempos de criança na Fonte da Saudade, antes de o Túnel Rebouças ser inaugurado. Morava ao lado da Igreja de Santa Margarida Maria e, não só por isso, o lugar era bem tranquilo e pacífico. Pelo menos, de dia. De noite, depois das brincadeiras de “Pera, uva ou maçã” com as meninas no corredor do prédio, íamos para casa dormir. Além do silêncio, ouvíamos, às vezes, os ladrões de carros que circulavam na área. Era um bairro de classe média e o comércio de peças roubadas de carros começava a proliferar. De vizinhos, tínhamos um almirante, comandante de mar e guerra, um piloto da esquadrilha da fumaça e um doidão que precisava de pouco para entrar numa briga ou sair do prédio com uma arma na mão. Quando um ladrão era flagrado no ato, ouvia-se uma saraivada de balas, vinda de todos os lados.

Naqueles tempos, o porte de arma nem era discutido. Meu pai, como bom militar, se unia aos vizinhos e usava sua 32 para espantar os gatunos do alto da janela do terceiro andar. Para mim, era um terror e lembro disso hoje lendo as notícias sobre os confrontos nas comunidades do Rio. É um terror muito pior. Num sábado de feira livre na Lagoa Rodrigo de Freitas, um ladrão foi flagrado entrando na casa do tenente da Força Aérea Brasileira que voltava de viagem. Foi um deus nos acuda e, logo depois, lá estava o corpo estendido no chão. Não sei até hoje se o tal ladrão, conhecido como Pé de Cabra, morreu.

Assim eu cresci e tentei dormir nos anos que morei lá. Uma noite, outro ladrão que usava um Gordini com escapamento aberto tentou roubar os carros. Foi recebido a bala, mas não desistiu. Ouvi o motor do Gordini indo embora, bem distante, lá pelos lados da Hípica, tal era o silêncio. Para o meu terror, segundos depois, ele voltou. Por detrás da persiana de casa, fiquei espreitando o momento da emboscada. Foi um tiro só que atingiu o carro. O ladrão se mandou e dessa vez escutei o motor do carro sumindo. Passei a noite toda acordado só para confirmar que, de fato, ele não voltaria. Naquela região tínhamos muitas áreas de lazer apesar de ainda não se chamar assim. Onde hoje é a descida do Rebouças para a Lagoa era uma bela e tranquila pracinha com a estátua de Quintino Bocaiúva no meio. O chão era de terra e as crianças brincavam ali na boa. Em frente tinha uma escola pública, Pedro Ernesto, com um parque só seu, bem maior do que o que sobrou hoje. Era o parque da escola, mas todos nós podíamos frequentar.

Uma vez um estranho foi interceptado antes de, segundo disseram, começar a molestar as crianças. Meu pai, que adorava uma briga, saiu no braço com ele e, até imobilizá-lo, foi ferido na barriga por um pedaço de pau. Esse jeitão do meu pai, ao contrário do que ele pretendia, me deixava com mais medo ainda. Ser protegido por alguém agressivo não passa a sensação de proteção e sim de risco constante.

Morria de medo desses embates diurnos e noturnos e quando passava na frente da igreja, indo para o colégio, tentava uma graça que estivesse sobrando por ali. Não me aprofundava muito nessa missão porque também morria de medo dos sermões do Apocalipse.

Não era fácil ser adolescente. Só fui me livrar desses fantasmas mais tarde, pouco tempo antes de criar outros novos, bem mais reais que me prenderam duas vezes e me fizeram ir embora para a Itália. Mas isso é outra história.

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Macaque in the trees
Confira a charge de Miguel Paiva publicada na capa do JB deste domingo



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