Jornal do Brasil

Coisas da Política

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Tereza Cruvinel

Retrato passageiro

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As três últimas pesquisas eleitorais coincidem no essencial, apesar de pequenas variações quantitativas: Datafolha, CNT/MDA e Ibope/Estadão informam que, se a eleição fosse hoje, e o ex-presidente Lula pudesse concorrer, ele poderia ser eleito até mesmo no primeiro turno. Dizem ainda que, com Lula excluído, Jair Bolsonaro seria o mais votado e poderia ter Marina Silva como adversária no segundo turno, em caso de fracasso da estratégia petista, de transferir os votos de Lula para seu virtual substituto, Fernando Haddad. Se ninguém, por ora, tira Bolsonaro do segundo turno, ele perde para todos no confronto final. Este, porém, é o retrato de um momento em que breve já terá passado. A disposição do eleitorado foi bem explorada mas algumas merecem maior realce.

O lugar de Marina

O lugar de Marina Silva na disputa, neste momento, merece a atenção que ainda não lhe foi dado. Raciocinando com os números do Datafollha, no cenário sem Lula a eleição estaria entre Bolsonaro e ela. Os dois é que iriam ao segundo turno em caso de fracasso da estratégia petista da fusão de imagens e transfusão de votos. Sem o ex-presidente no páreo, Bolsonaro chega a 22% (cresce dois pontos) e ela, a 16%. Marina dobra de tamanho em relação ao cenário com Lula, em que obtém apenas 8%. Aparece isolada em segundo lugar, e não embolada com Ciro Gomes, como já foi dito. Está bem à frente dele, que alcança 10% no cenário sem Lula, e disputa é o terceiro lugar com Geraldo Alckmin (9%).

Este isolamento de Marina no segundo lugar decorre de uma migração natural de eleitores lulistas para ela. Quando perguntados em quem votariam caso Lula não possa concorrer, 17% dizem que em Haddad e 10%, nela.

O novo potencial exibido por Marina já chamou a atenção do PT, e também a de Bolsonaro, que a elegeu nas redes sociais como seu alvo. Não por acaso ela também o confrontou com garra no debate da RedeTV, e deve ter crescido com isso.

A grande incógnita

A estratégia eleitoral do PT, aos trancos e barrancos, avança. Quanto mais forte estiver Lula, maiores as chances da transferência. A grande incógnita é sobre qual a fração de seu arsenal de votos Lula conseguirá transferir ao substituto. No interior do PT persiste uma discussão sobre o momento da troca. Alguns receiam que o prolongamento da disputa judicial em favor de Lula comprometa a transferência. O partido vai com Lula “até o extremo limite”, disse ontem a senadora Gleisi Hoffman à coluna. Isso significa que, após a decisão do TSE virão recursos ao STJ e ao STF, que podem empurrar a troca definitiva para 17 de setembro (data limite para a troca de candidatos). Por esta lógica, quanto maior a exposição de Lula como candidato, maior a frustração de seus eleitores com a inabilitação, maior a transferência.

O Datafolha realçou muito o fato de que 31% dos eleitores votariam em um nome indicado por Lula, 18%, talvez, e 48% não o fariam. Mas o dado que conta foi pouco destacado. É a disposição de 62% dos eleitores de Lula de votarem no seu indicado. Isso pode significar até 24% dos votos válidos, ou vaga certa no segundo turno.

O que se passa?

Parece existir no Brasil uma pergunta interditada: o que leva 39% dos eleitores a manifestar o desejo de votar num candidato que está preso e dificilmente poderá concorrer? A lembrança dos bons tempos de Lula, com crescimento, pleno emprego, crédito farto e uma larga rede de proteção social é uma explicação parcial. Lula tem 49% de seus votos nos segmentos de mais baixa renda e escolaridade mas a pesquisa mostra 25% de votos nas classes médias. Quando, mais tarde, buscarem a resposta, os cientistas sociais talvez concluam que a teimosia foi uma resposta ao impeachment e à prisão de Lula, entre outras feitiçarias, por parte dos que engoliram em seco, não foram as ruas e deixaram o acerto para a hora do voto.



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