AJB Online Área do Leitor Pesquisa Classificados




Quem é ridículo sempre aparece

Finalmente o SBT estreou, esta semana, o programa Ídolos, versão brasileira do American idol. Como na produção americana, exibida no Brasil pela Sony, Ídolos traz um júri que escolhe, entre dezenas de concorrentes e ao longo de várias apresentações, um jovem cantor que gravará um CD por uma grande empresa e será alçado ao status de celebridade. A versão do SBT, que usa tanto a música quanto a arte de abertura do original, é muito bem-feita, apesar do tom meio bobão usado pelos dois apresentadores. Só faltou uma coisinha que a versão americana tem de sobra: exploração do ridículo.

Enquanto no American idol há minutos e minutos de vários episódios dedicados àqueles que não têm a menor noção de sua falta de talento, no Ídolos são mostrados apenas trechos dos candidatos que mais dão vexame. Pelo menos no primeiro programa, parece que houve uma certa proteção à imagem dos pobres coitados que pagam um espetacular mico na frente da câmera. Até os quatro jurados são menos mordazes. São exigentes e não hesitam em dizer que o sujeito canta mal, mas não ridicularizam o miserável, como faz o jurado Simon, que ficou famoso nos Estados Unidos por tripudiar os candidatos.

Pode parecer que American idol, ao menos nos primeiros episódios, quando mostra as tenebrosas figuras berrando, é um programa com o objetivo de humilhar os sem-talento, para o bel-prazer de um monte de sádicos na frente da televisão. Mas não é por aí. No fundo, o que o programa faz é realizar o sonho de algumas dessas pessoas, que só querem aparecer na TV. Sim, pois é impossível que muitos desses candidatos achem que sabem cantar. Na versão do SBT também teve disso, com um sujeito que, depois de fazer mil poses para a câmera na fila de espera e se apresentar para os jurados, confessou ao apresentador que não tinha nenhum jeito pra cantor. Tava na cara que o rapaz, como tantos americanos já fizeram em cinco temporadas de programas, só queria sua parte no sonho warholiano, com seus minutinhos de fama. A ridicularização feita pelo programa, de forma menos ou mais discreta, é só um preço a se pagar pelo desejo realizado. É o que acontece também na seleção de candidatos para o Big Brother Brasil, com aqueles vídeos caseiros que mostram o que há de mais ridículo na espécie humana. Eles não se importam, só querem aparecer, poxa vida.

Essa vontade irresistível tem diferentes níveis. Às vezes, é coisa simples de ser satisfeita, bastando o indivíduo parar atrás de alguém que está sendo entrevistado na rua, dando uma de papagaio de pirata. Tática semelhante é usada pelas mocinhas que vão aos programas de auditório, usando sua melhor roupa e caprichando na maquiagem para serem selecionadas para as primeiras fileiras. Assim, aparecem a toda hora. Muitas fingem que nem estão ligando pra isso, querendo soar discretas.

Mas é nas mensagens para os comentaristas, durante as transmissão de jogos de futebol, que vemos a expressão mais contida (e talvez das mais frustrantes) dessa vontade de aparecer. O sujeito decide que quer ver seu nome na tela da TV sendo lido pelo narrador da partida. Então resolve usar o recurso que a Globo oferece e envia por e-mail sua sensacional pergunta. Na falta do que dizer, manda algo do tipo ''E então, Falcão? É cedo para comemorar o resultado?''. Se essa é a pergunta selecionada, imaginem as que ficaram de fora. Mandar essas perguntas para comentaristas só pode ser vontade de aparecer. O passo seguinte é se juntar àqueles que vão ao estádio com uma placa saudando o narrador e anunciando a novela que irá ao ar ao fim do jogo, que cada vez mais aparecem por aí. Por esses nem Andy Warhol esperava.

  • Ulisses Mattos escreve às sextas

  • uli@jb.com.br

    [07/ABR/2006]

    Aumentar letras Versão para imprimir Diminuir letras Enviar matéria

       Home > Colunas > 1001 Polegadas






    Tempo Real