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Para quem não quer pagar mico

Amiga Anna, permita lhe tratar por amiga, sou sua leitora fiel e adoro esses toques de classe. Vou recorrer a você, tão habituada a freqüentar a sociedade, porque fui convidada para passar a Semana Santa na casa de um casal amigo, em Vassouras, e estou com algumas dúvidas. O casal que nos convidou não tem filhos nem animais domésticos. Em compensação, meu marido e eu temos dois filhos, um de 7 e outro de 3 anos, além de um poodle, o nosso Jack, que não se separa das crianças. Aliás, nem elas dele. Vivem num grude, o bichinho é supermimado, nunca ficou longe da família. Meu marido, então, resolveu levá-lo conosco. Mas estou meio assim, sem graça, sem saber se devo levar o cachorro ou se isso pode incomodar os nossos amigos. Ah, Anna, tem uma coisa: o Jack é muito bem-educado, só faz suas necessidades no jornal e é mansinho, apesar de ter um pouco daqueles latidos histéricos próprios da raça. O que você acha que devemos fazer? Não quero também sacrificar os meninos, que poderiam ter dias divertidos, mas não consigo imaginar viajar sem o Jack. Agradeço a orientação que você puder me dar. Um beijo. Glória Fernandes.

Glória, obrigada pelos elogios, pelo carinho, mas francamente não sei se você vai mesmo gostar da minha resposta. Seguinte: para um casal sem filhos receber os filhos dos outros, vamos combinar, já é um sacrifício e tanto. Todas aquelas gracinhas que vemos nos nossos ninguém é obrigado a ver. Aliás, a bem da verdade, gente sem filho não costuma achar graça em coisa alguma nas criancinhas dos seus amigos. Seja porque não puderam, seja porque não quiseram ter filhos, já se colocaram numa posição diferente. É comum, embora haja exceções, que estes casais se impacientem com a inevitável barulheira, o choro na hora do banho, a malcriação, os acessos de teimosia, todos aqueles pequenos detalhes que todos os pais do planeta conhecem bem. Portanto, para início de conversa, criança em casa que não tem criança já é uma atrapalhação, uma inconveniência. Coisa que tem que ser bem conversada com os anfitriões, antes de a “família repinica” se instalar para o longo weekend. Se eles aceitarem, tudo bem. Aconteça o que acontecer, ninguém pode reclamar (só reze a Deus para fazer bom tempo, porque, com chuva, vocês correm sério risco com as crianças dentro de casa).

Agora, Glória, o Jack, pelo amor de Deus, nem pensar. A opção, aí, é clara: se eles não têm animais domésticos em casa é porque não gostam. E, se não gostam, não há de ser você, que já vem com um passivo de marido e dois filhos, que ainda vai pintar no pedaço com um cachorrinho – ainda que ele seja bem-educado, mansinho, uma flor da vida animal. E poodle, vamos combinar até porque já tive um, de saudosa memória, é uma raça bem histérica. Cachorro, por mais bem-treinado que seja, faz pipi onde não deve se não está ambientado, corre, late, pode morder ainda que na brincadeira, abana o rabo, joga bibelô no chão e por aí vai. Crianças e cachorros, ao vivo e em cores, só se você quiser perder a amizade do casal.

Então, das duas, uma: ou você desiste do feriadão, para não estressar o Jack , ou você hospeda o cãozinho num desses spas especializados e relaxa no fim de semana. Se as crianças deixarem, é claro.

Outra coisa: já que você e sua família serão alvo de tal delicadeza, não esqueça de levar um presente para os donos da casa – garrafa de vinho ou uísque, uma torta especial, um objeto para a casa, uma lembrança, em suma. Só para não chegar de mãos abanando. É uma boa regrinha de bem viver. Espero que você tenha uma Páscoa muito feliz.


Cachorro, por mais bem-treinado que seja, faz pipi onde não deve se não está ambientado. Corre, late, pode morder ainda que na brincadeira, abana o rabo, joga bibelô no chão e por aí vai... Crianças e cachorros, ao vivo e em cores, só se você quiser perder a amizade do casal.

aramalho@jb.com.br

[10/ABR/2006]

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