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O adeus de Jackie McLean

No último dia 31, o saxofonista Jackie McLean foi finalmente derrotado pelo câncer, às vésperas de completar 74 anos. Já há algum tempo não se ouvia, em discos novos, aquele som afiado, penetrante, acidulado, saboroso como um dry martini, do descendente estilístico de Charlie Parker. Seu nível de excelência no sax alto só foi atingido por outros três herdeiros do ''Bird'', cada um a seu modo: Julian ''Cannonball'' Adderley (1928-75), Art Pepper (1925-82) e Phil Woods (ainda ativo, aos 75 anos, apesar de um pulmão bem avariado).

Com apenas 19 anos, McLean - nascido e criado no Harlem, protegido de Parker, Bud Powell e Miles Davis - gravou seu primeiro disco jazzístico, liderado por Davis, ao lado do amigo de bairro Sonny Rollins (sax tenor), de Walter Bishop (piano) e Art Blakey (bateria). A sessão da Prestige que gerou Dig é de outubro de 1951, menos de cinco anos antes de o jovem saxofonista inscrever seu nome na história do jazz moderno, ao participar ativamente, sob a batuta de Charles Mingus, do antológico álbum Pithecanthropus Erectus (Atlantic 8809). Além da revolucionária faixa-título, que antecipava o free jazz, Mingus dedicou ao mais ''avançado'' integrante do quinteto a balada Profile of Jackie.

McLean tocou, logo depois, nos Jazz Messengers de Art Blakey (1956-57), mas teve a carreira prejudicada pelo abuso de drogas. Atuou como músico-ator (1959-60), com notório ''conhecimento de causa'', em The connection, de Jack Gelber - uma peça off-Broadway de trama bem semelhante à dramática condição do jazzman na vida real.

Apesar da difícil luta contra o vício, só superada tempos depois, o saxofonista de fraseado cada vez mais angular e imprevisível gravou, na década de 60, uma fieira de impactantes LPs para o selo Blue Note, que o entronizaram, definitivamente, no altar-mor dos grandes improvisadores do hard bop. A maioria desses discos foi reeditada e remasterizada em CD pelo mestre-engenheiro Rudy Van Gelder, responsável pelos registros originais.

Dentre esses álbuns, merecem especial destaque: Bluesnick (janeiro de 1961; quinteto com Freddie Hubbard, trompete; e Kenny Drew, piano); Let freedom ring (março de 62; quarteto com Walter Davis Jr., piano; e Billy Higgins, bateria); One step beyond (abril de 63; quinteto de concepção mais free, com Gracham Monchur, trombone; Bobby Hutcherson, vibrafone; e o baterista Tony Williams).

One step beyond (Um passo além) faz jus ao título, por prenunciar o LP Out to lunch (Blue Note), de fevereiro de 1964, com o qual Eric Dolphy - também na companhia de Hutcherson e Williams, mas com Freddie Hubbard no lugar de Monchur - definiu a direção do jazz free em termos de improvisação, porém baseado numa estrutura composicional mais trabalhada.

Desde 1968, Jackie dedicava-se à educação musical, na Universidade de Hartford, Connecticut. Foi mestre de estrelas emergentes como os saxofonistas Abraham Burton, Jimmy Greene e Antoine Roney. O último CD que o mostra ainda em grande forma é Hat trick (Blue Note), de 1996, com a excelente pianista japonesa Junko Onishi, Nat Reeves (baixo) e Lewis Nash (bateria). São nove faixas saborosas, incluindo versões de dois memoráveis temas de McLean: Little Melonae e Bluesnick.

  • Luiz Orlando Carneiro escreve às quintas

  • luizoc@jb.com.br

    [13/ABR/2006]

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