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Palavra de honra

Confesso, e espero que não me ponham na cadeia, como o quer o sr. Ronaldo Caiado, presidente da UDR: sou comunista. É claro que nada tenho a ver com Stálin, nem com os ''comunistas'' que presidem a Câmara, nem com os ''comunistas'' que têm vergonha da palavra comunismo. Gosto da idéia de viver num mundo onde cada um recebe de acordo com sua necessidade e dá de acordo com a sua possibilidade. Não acredito em ditaduras; nem na do proletariado. Acho que não existe liberdade sem comunismo, nem comunismo sem liberdade. Também não existe liberdade sem democracia. A democracia, porém, foi prostituída - já nos tempos de Spartaco - quando uma minoria impôs sua vontade e tornou a busca da riqueza material uma lei natural, como as estações do ano. Fez até com que os escravos vissem no algoz o seu modelo. Hoje, metade do mundo vive vida de cachorro, mas como continua a crescer, um dia poderá se rebelar. Temeroso, o tirano endurece, pois nem todo mundo está convencido de que o chicote é bom para o lombo. Os neoliberais também acham que é preciso endurecer sem abdicar da palavra democracia.

A democracia é o governo do povo. Com raras exceções escandinavas, eu hesitaria em chamar de democracia um país onde a grande maioria é composta de miseráveis capazes de serem enganados por uma minoria. Não importa se esta minoria se apresenta como de direita ou de esquerda. O social do PSDB, o trabalhismo do PTB, o liberalismo do PFL, o democrático da UDR são marcas de fantasia. Se essas marcas possuíssem significado, os políticos não viveriam mudando e recebendo mensalão.

Também não sou seguidor de Lukács, Korsh ou Bloch. Sinto-me mais próximo de Gramsci, para quem o poder cultural deveria ser tomado antes do poder político. A revolução comunista, quando vier (no creo que sera para mis ojos), deverá vir de dentro para fora e adaptada às circunstâncias sociais, geográficas e econômicas de cada país. Quando os comunistas conseguirem convencer os homens de que estes são feitos à imagem e semelhança de Deus (estou cada vez mais propenso a acreditar que a existência de Deus faz mais sentido do que a sua ausência), e não para serem burros de carga; quando os homens se reconhecerem escravos e se rebelarem contra isso; quando compreenderem que devem defender sua cultura, seus valores e seu caráter intrínseco e que isso só acontece por meio da dúvida e do conhecimento, não precisarão de armas para tomar o poder. Quando se livrarem da ganância que lhes foi inoculada pela classe dominante, o poder será deles, pois, a essas alturas, até os algozes concordarão (tenha a máfia o nome que tiver) com isso, se não quiserem perecer.

Li artigo de conhecido cronista dizendo que o povo não é melhor do que o Congresso que elegeu, pois uma pesquisa do Ibope revela que 69% dos entrevistados mostraram-se mais cúmplices do que vítimas. Se pudessem, seriam tão venais quanto os políticos. Dessa maneira, diz o cronista, o Ibope tenta demonstrar que os problemas éticos não estão concentrados apenas nas elites, mas em todas as classes sociais.

Em primeiro lugar, trata-se de uma pesquisazinha safada que surge no momento em que os três poderes caem de podre. Em segundo lugar, 31% não concordaram. Em terceiro lugar, quem ensinou os 69% a pensar assim, senão a classe dominante e principalmente o neoliberalismo, cuja cartilha é ''O lucro é meu pastor e nada me faltará''? Você não pode tratar um menino pobre como um cão e querer que ele se comporte como um cidadão sem mácula.

Eu estudei no Grupo Escolar Primeiro de Maio de 1945 a 1949. Éramos todos pobres e nenhum dos meus ex-colegas tornou-se delinqüente. Aprendia-se, além das matérias obrigatórias, a cultivar a honra, o caráter, a dignidade e a honestidade, não porque poderíamos ser castigados, mas porque há coisas que um homem (ou mulher) não faz. Querer culpar o povo por acreditar nas mentiras de marqueteiros milionários fica a meio caminho entre a ingenuidade e a cumplicidade.

O problema, na verdade, é que há muito tempo não se ensina às crianças o conceito de honra. Aliás, só vejo a palavra ser usada quando alguém diz ''palavra de honra'' - sem nem saber o que está dizendo. Responda rápido: é bom viver num país onde o conceito de honra foi abolido e tudo pode se comprado? É bom viver num país sem outras características além do desemprego, da miséria, da prostituição e da criminalidade?

Até quando todos, inclusive os muito ricos e os muito poderosos, agüentarão esse isolamento? Não seria melhor uma sociedade ética? Certamente teríamos mais escolas, mais hospitais e menos presídios e hospícios. O problema é que, para isso, o poder teria que se regenerar. E ele fará isso cedo ou tarde. Se for inteligente, cedo. Como no verbo ceder.

  • Fausto Wolff escreve às terças, quintas e domingos

  • cadernob@jb.com.br

    [13/ABR/2006]

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