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Histórias do Rio de Janeiro

Carlos e Luizinho, que moram em Laranjeiras, foram assaltados na porta de casa quando chegavam do super-mercado com o carro cheio de compras. Os ladrões os renderam com armas, levaram o carro, as compras e o cachorro que estava no banco detrás! Era uma vez... um cão maltês...

Os dois amavam o cachorro, que se chamava Napoleão. Ficaram desesperados. Foram então à delegacia dar queixa do carro roubado e falaram com toda a vizinhança, todos os motoristas de táxi da redondeza, todo mundo que passava pela rua, sobre Napoleão, o cão. Meu Deus! Como estaria ele? Será que o mataram? - pensavam, horrorizados, noites e noites sem dormir. Passaram a tomar calmantes, nunca mais foram àquele super-mercado que lembrava a eles o trauma de ter perdido o cachorro, e Luizinho começou até a beber.

Carlos achava aquilo um exagero. ''Beber por causa de um cão!''

Luizinho chamava-o de desalmado. ''O que estaria passando Napoleão agora, com fome e frio, se é que os traficantes não o mataram?'' Carlos perguntava: ''Que frio? Num Rio de Janeiro de 40 graus?''. Luizinho respondia que ele falava assim porque nunca tinha dormido na rua. Carlos respondia que ele também não e que isso era falta de pensamento positivo. ''Pra que tanta meditação, tanta ioga, johrei, se não põe tudo isso em prática?'' Luizinho então resolveu maneirar, mas continuavam os dois arrasados, só que um disfarçava pro outro.

Um dia receberam um telefonema da delegacia dizendo que o carro tinha sido achado em Santa Teresa, mas, obviamente, sem nenhum cachorro dentro.

Os amigos ficaram desesperados. Nem disfarçaram mais. Carlos, o que pensava positivo, sugeriu a Luizinho que comprassem outro cachorro pra esquecer um pouco Napoleão, que a essa altura já estaria exilado na Ilha de Santa Helena. Estava na hora de substituir Napoleão. Luizinho dizia que Napoleão era insubstituível, ao que Carlos revidava dizendo que até a França conseguiu sobreviver sem ele, que ninguém podia ficar desgovernado daquele jeito por falta de Napoleão. Mas Luizinho afirmava que ia encontrar Napoleão de qualquer maneira, fosse em Santa Helena ou na favela. E saiu pelas ruas do bairro onde a polícia tinha encontrado o carro. Falou com todo mundo que achou. Nada.

Um dia estavam em casa Carlos (o que tinha pensamento positivo), lendo jornal, e Luizinho, o deprimido, quando tocou a campainha. Era um motorista de táxi que, pela descrição do cão, achava que o tinha visto na Praia de Botafogo numa comunidade de mendigos, muito animado, brincando com os vira-latas.

Carlos e Luizinho entraram no carro do motorista e foram até a Praia de Botafogo.

Então, entre os mendigos que se divertiam deitados em colchões cheirando cola, namorando, contando piadas e fumando maconha, viu Napoleão, o Imperador, no meio daquela ralé de vira-latas.

Chamaram por ele, que só não veio correndo porque estava amarrado por uma corda, mas começou a latir e a sacudir o rabo fazendo com que todos os outros cães o imitassem.

Os amigos conversaram com os mendigos, que disseram que o cachorro era deles.

- Não senhores. O cachorro é nosso.

Os mendigos disseram que se não fossem eles, o cachorro estaria morto, porque não saberia sobreviver à vida de pobre, tendo que passar fome e descolar um ossinho no botequim. Luizinho olhou para a cara de Carlos, como quem diz: ''Não falei?''.

Pechincharam com os mendigos e levaram Napoleão por R$ 20. Os mendigos ficaram contentes e disseram: ''Vai com Deus''. E eles foram. Com Deus e Napoleão.

  • Maria Lucia Dahl escreve às sextas

  • mldahl@uninet.com.br

    [14/ABR/2006]

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