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Predestinação
Mundo moderno. Outro dia dei uma entrevista no programa Almanaque, da Globo News, e recebi comentários dos Estados Unidos e do Japão via o endereço eletrônico do JB, uma verdadeira rede onde entramos sem saber de que lado da malha podemos sair. Beth, uma leitora que surfa por vários meios de comunicação e pede desculpas por sua fala ''americanizada'', reagindo à entrevista na qual tratávamos da vida dos casais, me pergunta se vale mais a ''construção e manutenção do relacionamento ou a predestinação''.
Construção é uma palavra que faz pensar em adesão a um projeto de longo prazo, dedicação a uma relação que pode ter avanços e recuos, prazeres que precisam ser adiados em função de dificuldades momentâneas, entregas e medo de se entregar, desejo e temor de estar junto e deixar-se influenciar pela convivência com o parceiro, impulsos de dominação e afirmação do próprio eu misturados à necessidade de partilhar. Ou seja, um longo caminho em constante mutação, onde o amor que liga e atrai só se sustenta se decidirmos por uma trilha que vai sendo construída junto com a caminhada.
Num mundo que nos treina a agir como bebês, buscando a realização e a satisfação de forma imediata, aprendendo a descartar o que temos em rápido movimento de troca por algo que pareça melhor e mais bem acabado, como ficam as relações que implicam em esforço e ''manutenção''? Quando a mente humana aprende que o valor maior é ter, o estar (e não o ser como muitos pensam) se transforma numa vivência aprisionadora. O temor de perder a liberdade domina as emoções e qualquer traço de compromisso provoca anticorpos como se um vírus invadisse o mundo pessoal, fazendo do envolvimento amoroso uma ameaça. O mais engraçado é que, de maneira contraditória, nos dias de hoje, a individualidade se traduz na exigência de um consumo de estilos que dão a ilusão de estar descartando o eu a cada compra e construindo uma nova identidade a cada estação. Quando a identidade humana é construída com estes valores, a manutenção de relacionamentos duradouros exige muita determinação.
Nesta realidade mutante, onde as referências não param de se transformar, surgem problemas e novas formas de relacionamento que antes não existiam. Se somos treinados a afirmar permanentemente a individualidade, desenvolvendo comportamentos assertivos e competitivos que transformam o próximo em cada vez mais distante, e se isto se dá em um contexto onde, desde cedo, nos ensinam que sempre existe um substituto melhor para o que temos, é muito fácil transformar-se num serial lover, correndo atrás de um encontro inalcançável e, no fundo, indesejado. Para não cair nas armadilhas deste pensamento, é preciso reafirmar valores de responsabilidade pelo próximo, resgatando o comprometimento e o envolvimento afetivo como fundamentais para a vida humana. Ao que parece, nestes nossos dias de 'salve-se quem for mais rápido', revolucionário é não romper relações a cada problema que surge.
Para não ficarmos na ilusão dos amores imaginários, é preciso poder equilibrar as diferentes forças e tendências que nos movem e nos atraem. É isto que nos torna mais capazes de não temer ''estar'' com a pessoa que o destino pôs a nossa frente, ou como diz a Beth, a ''predestinação''. Eis aí um processo que transforma a relação amorosa num acontecimento divino.
Um bom domingo. Paulo Blank é psicanalista e autor de Cabala - o mistério dos casais (Relume Dumará)
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