O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

O impacto da crise do RS no PIB do país

Publicado em 07/05/2024 às 16:29

Alterado em 07/05/2024 às 16:29

O Rio Grande do Sul é a 4ª economia regional do país, com cerca de 6,5% de participação no PIB do Brasil, à frente do Paraná e Santa Catarina, mas atrás de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Responsável por mais de 65% da produção de arroz brasileira, a tragédia local só não arrasou a colheita porque a maior parte da safra, que inicia colheita em fevereiro, já estava armazenada. Mas qual terá sido o grau de contaminação dos armazéns gaúchos onde estava estocada a produção de 2023/2024, só será possível verificar quanto as águas baixarem.

O governo já fala em importar arroz. É bom mesmo que o governo Lula não negue esforços para importar arroz, feijão e outros alimentos que são destaque na produção gaúcha, para evitar a ação especulativa dos atravessadores. O Brasil ainda não desenvolveu a produção de arroz do sequeiro, que era tradição no Maranhão e ainda depende das safras do RS e Santa Catarina.

A safra de uva foi colhida em fevereiro e março (a Festa da Uva, em Caxias do Sul é sempre realizada no fim de fevereiro, para celebrar o fim da colheita). Mas os prejuízos às famílias dos produtores locais são incalculáveis em áreas de lavoura, de criação, maquinários e instalações. Isso vai exigir ágil moratória da rede bancária (o maior impacto é no Banrisul, o banco do estado, seguido pelo Banco do Brasil). Itaú, Santander e Bradesco abriram linhas de refinanciamento.

A indústria fumageira, no vale do rio Pardo e sede em Santa Cruz do Sul, pode ter efeitos secundários. A produção de gado e ovinos nos pampas pode ter sido poupada, mas as criações de suínos, frango de corte e galinhas poedeiras e gado leiteiro podem ter sido muito afetadas.

Conquista do CO reduz impactos
A migração da produção de grãos para o Centro-Oeste reduziu o impacto de tragédias climáticas nos estados do Sul. Em fins de 1985, a forte seca que atingiu o RS adiou de 1º de janeiro para 28 de fevereiro de 1986 o lançamento do Plano Cruzado. O país precisou fazer grandes importações de arroz, milho e feijão para conter a inflação. Na década anterior, a geada dos cafezais no Paraná e São Paulo, em 1975, com a posterior erradicação da lavoura, desequilibrou a produção de alimentos básicos por duas décadas, até o país, via pesquisas genéticas para a soja da Embrapa, conquistar o Centro-Oeste.

A tragédia se estende à indústria petroquímica de Canoas e Triunfo, cidades próximas a Porto Alegre. O polo de Triunfo é o 2º maior do país e a parada de produção está afetando até a produção de Camaçari (BA) e Cubatão (SP), que utilizam alguns insumos do sul. As grandes indústrias de implementos agrícolas e de transporte rodoviário, como a Randon, estão na serra gaúcha (Caxias do Sul), que foi parcialmente poupada. Mas a logística está prejudicada, assim como a da fábrica da GM, em Gravataí.

Copom pode perder janela de oportunidade
Se a reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central for dominada pela ala da cautela e da falta de ousadia (mesmo com o horizonte externo mais desanuviado que há uma semana) e desistir de cumprir a redução de 0,50 ponto percentual prometida na taxa Selic – de 10,75% para 10,25% e baixar só 0,25 p.p. para 10,50% -, terá perdido enorme janela de oportunidade.

A economia real – empresas e consumidores e suas famílias – é que serão punidas pelo excesso de cautela. Se com os juros caindo 0,50 p.p. por reunião, o sistema financeiro não seguiu as diretrizes do Banco Central, e pouco baixou os juros das diversas linhas de crédito, com o sinal conservador do Copom aí mesmo é que não cairão os juros do cartão de crédito (acima de 300% ao ano) e do crédito pessoal (acima de 90% ao ano).

A inflação prevista para 2024 é de 3,70% e a de 2025, de 3,65%.

Renovação de Marlim premia Petrobras na OTC
A façanha de fazer uso intenso de inovação e tecnologia para revitalizar os campos maduros da Bacia de Campos (RJ), a começar por Marlim, que levou a um aumento de 230 mil barris por dia, em dezembro de 2023, na produção da Bacia de Campos, levou a Petrobras, que empreende na região a maior revitalização de campos maduros do mundo, a receber o 5º prêmio mundial de inovação e tecnologia concedido a “Offshore Technology Conference” (OTC). Em duas rodadas da OTC no Brasil, a Petrobras também foi premiada.

Realizada anualmente em Houston (Texas), a meca do petróleo nos Estados Unidos, a OTC é a maior conferência mundial de troca de experiências em tecnologia de prospecção e produção de petróleo em águas profundas e ultra profundas. Ano passado a Petrobras foi premiada na edição nacional da OTC. O campo de Marlim, o 1º a ter produção superior a 500 mil barris na Bacia de Campos, o que viabilizou contratos futuros de óleo do campo, já recebeu, em 1992, prêmio de inovação na produção de óleo e gás em águas profundas.

De lá para cá a indústria do petróleo em todo o mundo, com participação pioneira da Petrobras, só fez avançar na prospecção em águas ultra profundas, até a descoberta do pré-sal na Bacia de Santos e, também, na Bacia de Campos. Ao receber o prêmio, no último domingo, o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates destacou a importância de “termos conseguido aumentar em 230 mil barris/dia a produção de uma área, que já era considerada por muitos sem relevância no nosso portfólio”. Para Jean Paul Prates, o prêmio da OTC comprova que há futuro na Bacia de Campos e é uma evidência de que a Petrobras é referência, pela competência de seu corpo técnico, também nas atividades de recuperação de campos maduros”.

A revitalização de Marlim
No programa de revitalização de Marlim, na Bacia de Campos, a Petrobras colocou em produção, em 2023, os FPSOs (unidade flutuante de produção, armazenamento e transferência) Anna Nery e Anita Garibaldi. As novas unidades substituíram nove plataformas de produção que operavam no campo. Com as duas unidades, a Petrobras estima adicionar, ainda, ao menos 115 mil bpd, nos próximos anos. A modernização dos métodos de produção, além do aumento da produção com as duas plataformas FPSOs, permitiu a redução de 55% das emissões de gases de efeito estufa.

O Programa de Revitalização da Bacia de Campos, do qual faz parte o projeto premiado, é o maior programa de recuperação de ativos maduros em águas profundas no mundo. Nos próximos anos, a Petrobras pretende instalar três novos FPSOs na Bacia de Campos, nos campos de Jubarte, Barracuda& Caratinga e Albacora. A reciclagem de produção dos campos da Bacia de Campos (a Petrobras vendeu campos em águas rasas e ficou com os mais produtivos ou de maior potencial em águas profundas), vai abrir um enorme mercado para os estaleiros nacionais atuarem no descomissionamento das dezenas de atuais plataformas e nas adaptações para a extração de petróleo para as FPSOs que irão ampliar a produtividade dos campos. Isso vai exigir muita ocupação dos estaleiros de grande e médio porte.

Os grandes ainda poderão participar das licitações para a renovação da frota de navios aliviadores da Petrobras (que retiram petróleo estocados nas plataformas e FPSOs) com capacidade variável, e na renovação dos navios Panamax (que transportam de 65 mil a 80 mil toneladas de petróleo, via canal do Panamá). Navios de frete livre (Aframax) estão na faixa de 80 a 120 mil toneladas de porte bruto. Já os Suezmax, que trazem petróleo do Oriente Médio e podem atravessar o Canal de Suez, tem de 140 a 175 mil TPB.

Premiações mostram evolução da Petrobras:
2024 – Inovações tecnológicas em campos maduros em águas profundas, em Marlim e na Bacia de Campos
2023 – Tecnologia inédita dedicada à construção e intervenção em poços (OTC Brasil)
2020 – Inovações tecnológicas no campo de Búzios
2019 - Tecnologias desenvolvidas para desenvolver a produção do bloco de Libra (OTC Brasil)
2015 – Tecnologias para o Pré-Sal
2001 – Tecnologias de produção de óleo e gás em águas ultra-profundas, no campo de Roncador
1992 – Viabilização da produção de óleo e gás em águas profundas, com o campo de Marlim